quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Link.
Era nada mais que uma bola de um alaranjado vivo se desprendendo de um ponto fixo. Esse desprendimento levava a um longo caminho até o chão, caminho que foi percorrido lentamente, e uma vez encontrado o chão, com o impacto, a bola se desfez em inúmeros pedaços que correram pelo chão iluminando os cantos até então escondidos, para então se apagarem deixando apenas um cheiro que não fazia parte daquele cotidiano. Isso remeteu a algo muito maior, que até então não era percebido. Toda a força que todo o processo pede para que seja feito acaba passando despercebido com apenas um pensamento de comodidade ao fim da tarde. Todo o processo não era bem entendido até aquele momento, onde houve uma faísca mostrando os contornos ocultos pela sombra diária. Tudo o que restou foi uma agitação estranha, expressada em irritação, que agora também dói e volta-se em uma agitação sem meio para ser expressa. Em uma cadeia de expressões sem um meio onde possam ganhar vida tudo fica então no não dito, no não percebido, no não visto, o que no fim, irá gerar um desconforto até mesmo no respirar, como se não merecesse tal matéria necessária para tentar buscar meios de expressar. Mais uma vez em uma cadeia, onde os fatos estão aparentemente ligados, mas não conseguimos fazer a ligação, ficando um espaço pequeno, mas com uma grande capacidade alojar um rio onde tudo o que queremos esquecer passe rapidamente, gerando dores indecifráveis na superfície. Talvez essas dores sejam o motor que todo mundo precisa para que busca acabar com as mesmas, gerando mais uma vez uma cadeia.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Malas.
Eram três malas, com alguns furos para a entrada, e consequentemente, saída de ar. Todas as três possuíam rodas e eram facilmente encaixadas em trilhos, e a partir disso, apenas aguardavam o impulso inicial onde não mais seria possível parar. Além disso, as malas possuíam uma ordem temporal dissonante à realidade. Elas existiam no tempo delas, e não se preocupavam com os ponteiros que nos lembram quanto tempo ainda falta para que algo aconteça. É possível, que se essas malas fossem abertas, o seu conteúdo ficasse tão disperso que fosse impossível separá-los novamente e devolver à ordem inicial. Mas é justamente nessa parte que os furos na couraça das malas são prejudiciais. O seu conteúdo, que não é algo físico e palpável, vai escapando aos poucos, se dissipando no ar, se escondendo, pedindo liberdade. Ao mesmo tempo que esse processo é ruim, ele não o é, já que muitas vezes houve a pressão do lado de dentro das malas, e a única condição para que parassem com aquela dor incômoda, mas suportável, foi que pequenos furos fossem abertos. É assim que entrou a ambivalência entre o bom e o ruim, demonstrando um sacrifício necessário, onde é preciso abrir mão de algo para ter outro algo. Não questiono se isso é justo, até agora tem se mostrado o suficiente. O medo é quando isso deixar de o ser. Por mais que todas as malas estejam sempre juntas, lado a lado, elas também estão separadas, e apenas uma percorre o trilho. É possível sentir a presença das outras duas, mas sempre uma presença fina, presença que se mostra na forma da falta, e quando essa falta se tornar grande demais para ser controlada, os furos começarão, automaticamente, a ficar cada vez maiores, e consequentemente, cada vez mais o seu conteúdo irá se misturar. No fundo, eu sempre quis abrir as malas, e nunca tive a coragem necessária para lembrar onde estavam as chaves. Isso pouparia o esforço de fazer com que tudo permaneça no seu devido lugar, onde sempre existiu um desejo para que o caos fosse feito, e com ele a necessidade de encontrar um conteúdo em específico em meio à um conteúdo maior. Agora percebo que por mais que o conteúdo interior seja o seu próprio criador, os furos serão a sua fuga, a sua fuga necessária.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
A dança do tempo.
E nesse calendário com tantos e tantos dias, me percebo agora perdido no tempo. Não no tempo cronológico, mas no tempo feito exatamente para mim. Vejo como esse tempo passa mais rápido que os dias marcados no calendário. É como se as horas tivessem um valor diferente para mim e eu tivesse que entender isso, saber o que fazer com isso. O motivo dessa perda no tempo, é justamente por não saber como levar esse descontrole de horas, que no fundo sempre me gerou um controle estranho a consciência. Não quero dizer que tudo é automático, porque começo a pensar que o automático está preenchido por intencionalidade, então seria um automático já previsto, mesmo que eu não perceba isso. Acabo por perceber que, em épocas, grande parte do meu dia é feito em cima de fatos que me controlam e eu apenas respondo a eles, reajo, como um reflexo que eu não conseguisse segurar, mas sabia que teria que exercer. Então, vejo que o tempo foge de minhas mãos, não que em algum momento eu o tenha retido, já percebi que não é possível fazer isso, e a não aceitação desse fato só trará mais perda de controle, como em uma cadeia de eventos descontrolados. Aceitar essa falta de controle é, sobretudo, aceitar a pequena parte de controle que é possível ter: o controle de perder o controle. Não saber até que ponto as respostas estão sendo dadas fielmente, ou se estão sendo reflexos que nem ao menos se pronunciaram antes. Reflexos que se contradizem com os discursos e se fecham em um nó que depois de feito, nem o mais afiado dente é capaz de desfazer. Agora percebo o quão distante está o controle do tempo. E tempo também pode ser entendido por instante. Na verdade, tempo pode ser entendido por toda e qualquer manifestação. É como se fosse um pagamento que as ações precisam realizar para poderem existir. Elas pagam com o próprio tempo, pagam com a própria existência, virando depois meras lembranças, e talvez, até mesmo arrependimentos. Arrependimento é o juro que o tempo cobra por tentarmos ter controle, um juro que pressiona cada parte do corpo fazendo com que mesmo não os vendo, continuamos sentido, e tentando nos livrar deles. O que não é possível, já que essa é como uma daquelas marcas que causamos a nós mesmos diariamente. Desde pequenas queimaduras, até a cortes profundos. Sabemos que essas marcas ficarão atenuadas, mas nunca deixarão de fazer parte de nós, da nossa pele. E isso é o tempo tentando ser gentil, mostrando que com o decorrer dele mesmo, as marcas ficarão suavizadas, mas nunca em nossa história serão extintas, sendo então como um aviso. Nunca voltaremos a nossa pele inicial, onde as únicas marcas são aquelas que o tempo cobra por nos dar a vida. E assim, segue essa grande dança, onde apenas escolhemos os sapatos que preferimos calçar, e nada mais.
sábado, 30 de abril de 2011
Água Viva
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Portas.
No processo de construção de uma porta ela nunca já nasce fechada, muito menos trancada. O processo que fará com que ela se feche, será lento e gradual, é preciso que alguém ensine isso para ela, ela não pensa, ela percebe, sente. Cada dia ela vai aprendendo como deve se fechar, como desempenha um papel melhor quando está fechada, como uma autodefesa. Não quero falar que quando está aberta, a porta não tem o seu valor. É justo pelo contrário, como existiria um fluxo, uma passagem, uma transferência se a porta estivesse fechada? A questão é quando ela deve ser aberta, por qual motivo o foi, e se deverá continuar assim. Em um ponto mais agudo, temos a chave, onde não queremos que a porta se abra quando bem entender. Talvez essa seja a mais drástica defesa que temos: impedir que o fluxo ocorra, nos privarmos para que a transferência não seja compartilhada. Nesse aspecto, cada um possui a sua própria chave, mas é algo um pouco mais complexo, porque não temos o controle de quando essa porta deve ser trancada e destrancada. Ela apenas o é, o que gera uma desarmonia em todas as dobradiças, como se uma corrente de ar fosse ativada e durante um período passasse através dessa porta o tempo todo, então por mais que a porta fosse fechada, ela não permaneceria fechada. Seria aberta sem pedir licença, com suas dobradiças gritando de dor pelo esforço inútil. Acredito que seja tempo de buscar o controle da chave, não deixar que ela tome o comando. A maçaneta está lisa, como tomada por um feitiço onde nenhuma mão consiga a carregar. A porta está pesada, pesada de tanto esforço por tentar se manter fechada, sobra apenas o cansaço, onde começa a se tornar cada vez mais aparente para os corredores. Até a porta ser retrancada novamente, será um processo longo e doloroso, mas que irá lembrar o quanto esse fluxo nos mostra como estamos vivos, como nos sentimos vivos, como gostaríamos de nos sentir quando a porta não precisar mais de chave alguma.
sábado, 26 de março de 2011
Queda.
Existe um ponto fixo onde dois lados se encontram, se comunicam e se abandonam, e foi em um desses ponto onde ele se encontrava em pé. Exatamente no limite entre dois lados. Naquele momento tudo se tratava de um trio, mesmo o terceiro elemento não se mostrando fisicamente. Uma corrente de ar veio de uma das direções, esquecendo de fazer a curva e seguir o seu caminho, se perdendo em ar aberto, sem uma direção, deixando de existir a cada metro que avançava. A visão era percebida em vários ângulos, enquanto se dirigia para frente, via os lados com clareza, com mais clareza até mesmo que se estivesse em foco. Na frente só havia uma fogueira. Com suas chamas cada vez maiores, ia iluminando ao seu redor, no mesmo momento em que uma fumaça cada vez mais densa começava a se desprender daqueles braços flamejantes. Ele não via com tanta clareza através da densa névoa que tomou conta de todas as suas visões, ele não se enxergava mais. Era como se uma consciência estivesse acordava, apenas ela, percebendo um mundo que não podia explicar, não podia entender, não podia agir. Existia e só. Aquilo incomodou de certo modo, que as chamas pareciam ser a única resposta, mesmo que apenas instintiva. Como se um mergulho naquele mar vivo e inquieto pudesse limpar-lhe a visão. Pedia uma submersão, sentia vontade de buscar o fundo sem pressa, cair em um abismo de calor inumano onde deslizasse de forma ardente, deixando seu corpo sentir e doer o quanto precisasse. Era como se a dor fosse necessária naquela descida, como um amparo, dizendo que aquela seria a pior parte, e logo depois, com o fundo uma vez alcançado, a recompensa chegaria. Não era um problema descer tranquilamente acompanhado da dor. Era uma escolha, mesmo que instintiva, e naquele momento estava claro que escolhas não doíam, a ausência delas sim. E era isso que ele mais temia, sentir a dor da ausência da escolha. Já que o abismo só faria sentido se fosse fruto de uma escolha. Um pulo era a única coisa necessária naquele momento, a névoa começava a se dissipar, deixando o ar cada vez mais limpo, as narinas já estavam voltando à vida, lentamente iam sugando aquele ar cada vez menos denso. Um deslize adiantou o pulo, o ar o sugou por inteiro, como se pedisse vingança por ser parte dele, como se finalmente fosse atrás de um direito seu a muito posto em segundo plano. A queda foi suave, lenta, quente. Ele não tinha pressa, estava vivendo a sua escolha, e a dor era nada mais que uma música percorrendo sua pele. Caiu. Sentiu a grama fria tocar seus pés, o frio cauterizou as feridas e ele sentiu por fim o sentido que procurou naquela queda. Ele era o fogo.