quinta-feira, 28 de abril de 2011

Portas.

No processo de construção de uma porta ela nunca já nasce fechada, muito menos trancada. O processo que fará com que ela se feche, será lento e gradual, é preciso que alguém ensine isso para ela, ela não pensa, ela percebe, sente. Cada dia ela vai aprendendo como deve se fechar, como desempenha um papel melhor quando está fechada, como uma autodefesa. Não quero falar que quando está aberta, a porta não tem o seu valor. É justo pelo contrário, como existiria um fluxo, uma passagem, uma transferência se a porta estivesse fechada? A questão é quando ela deve ser aberta, por qual motivo o foi, e se deverá continuar assim. Em um ponto mais agudo, temos a chave, onde não queremos que a porta se abra quando bem entender. Talvez essa seja a mais drástica defesa que temos: impedir que o fluxo ocorra, nos privarmos para que a transferência não seja compartilhada. Nesse aspecto, cada um possui a sua própria chave, mas é algo um pouco mais complexo, porque não temos o controle de quando essa porta deve ser trancada e destrancada. Ela apenas o é, o que gera uma desarmonia em todas as dobradiças, como se uma corrente de ar fosse ativada e durante um período passasse através dessa porta o tempo todo, então por mais que a porta fosse fechada, ela não permaneceria fechada. Seria aberta sem pedir licença, com suas dobradiças gritando de dor pelo esforço inútil. Acredito que seja tempo de buscar o controle da chave, não deixar que ela tome o comando. A maçaneta está lisa, como tomada por um feitiço onde nenhuma mão consiga a carregar. A porta está pesada, pesada de tanto esforço por tentar se manter fechada, sobra apenas o cansaço, onde começa a se tornar cada vez mais aparente para os corredores. Até a porta ser retrancada novamente, será um processo longo e doloroso, mas que irá lembrar o quanto esse fluxo nos mostra como estamos vivos, como nos sentimos vivos, como gostaríamos de nos sentir quando a porta não precisar mais de chave alguma.

sábado, 26 de março de 2011

Queda.

Existe um ponto fixo onde dois lados se encontram, se comunicam e se abandonam, e foi em um desses ponto onde ele se encontrava em pé. Exatamente no limite entre dois lados. Naquele momento tudo se tratava de um trio, mesmo o terceiro elemento não se mostrando fisicamente. Uma corrente de ar veio de uma das direções, esquecendo de fazer a curva e seguir o seu caminho, se perdendo em ar aberto, sem uma direção, deixando de existir a cada metro que avançava. A visão era percebida em vários ângulos, enquanto se dirigia para frente, via os lados com clareza, com mais clareza até mesmo que se estivesse em foco. Na frente só havia uma fogueira. Com suas chamas cada vez maiores, ia iluminando ao seu redor, no mesmo momento em que uma fumaça cada vez mais densa começava a se desprender daqueles braços flamejantes. Ele não via com tanta clareza através da densa névoa que tomou conta de todas as suas visões, ele não se enxergava mais. Era como se uma consciência estivesse acordava, apenas ela, percebendo um mundo que não podia explicar, não podia entender, não podia agir. Existia e só. Aquilo incomodou de certo modo, que as chamas pareciam ser a única resposta, mesmo que apenas instintiva. Como se um mergulho naquele mar vivo e inquieto pudesse limpar-lhe a visão. Pedia uma submersão, sentia vontade de buscar o fundo sem pressa, cair em um abismo de calor inumano onde deslizasse de forma ardente, deixando seu corpo sentir e doer o quanto precisasse. Era como se a dor fosse necessária naquela descida, como um amparo, dizendo que aquela seria a pior parte, e logo depois, com o fundo uma vez alcançado, a recompensa chegaria. Não era um problema descer tranquilamente acompanhado da dor. Era uma escolha, mesmo que instintiva, e naquele momento estava claro que escolhas não doíam, a ausência delas sim. E era isso que ele mais temia, sentir a dor da ausência da escolha. Já que o abismo só faria sentido se fosse fruto de uma escolha. Um pulo era a única coisa necessária naquele momento, a névoa começava a se dissipar, deixando o ar cada vez mais limpo, as narinas já estavam voltando à vida, lentamente iam sugando aquele ar cada vez menos denso. Um deslize adiantou o pulo, o ar o sugou por inteiro, como se pedisse vingança por ser parte dele, como se finalmente fosse atrás de um direito seu a muito posto em segundo plano. A queda foi suave, lenta, quente. Ele não tinha pressa, estava vivendo a sua escolha, e a dor era nada mais que uma música percorrendo sua pele. Caiu. Sentiu a grama fria tocar seus pés, o frio cauterizou as feridas e ele sentiu por fim o sentido que procurou naquela queda. Ele era o fogo.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Lembranças.

Eram pouco mais de dez horas da manhã. Ele percebeu os sentidos voltarem ao corpo lentamente logo após a consciência ganhar vida novamente. Ficou deitado, imóvel, acolhendo aquela sensação como se nunca a tivesse sentido antes, os olhos permaneceram fechados, deixou que os outros sentidos fizessem o trabalho. Percebeu um barulho do outro lado da parede. Era chuva, tranquila e fina, mas fria, e ele não sabia perceber essa ligação metafísica, mas era como se seu corpo sentisse finos pingos gélidos uma vez ou outra. Chegou a pensar que talvez foi isso que interrompeu seu sono, mas também percebeu que fora uma das melhores maneiras para se acordar naquele dia. Sentiu um vento frio, quase imperceptível, apenas o necessário para se encolher e manter o calor que havia produzido e conservado durante a noite. Abriu os olhos. As cores do quarto estavam leves, por assim dizer. A cama estava ficando desconfortável, ou talvez ele era quem a estava rejeitando. A porta do quarto foi aberta. Tudo o que existia do outro lado era o silêncio. Silêncio esse que trouxe de volta memórias que ele julgava ter esquecido, julgava não ser mais necessário lembrar. E isso foi um engano que doeu, doeu como quando nos sentimos culpados por termos feito algo sem intenção, mas que sabemos não ser o certo. E essa dor estava por todos os lados. Cada objeto com sua lembrança. As paredes sussurravam entre si, como que comentando aquela falha grave. Talvez o incômodo tenha surgido para pedir que ele não vá muito longe, ou talvez foi justamente o oposto, para que mesmo quando a distância estiver incontável, às lembranças fiquem com ele, façam parte dele. Aquela sensação logo foi ficando cada vez mais suave e lenta, mas ele também aceitou isso, parecia que não era dia de fazer perguntas, algo que ele pensou não ser capaz. Lembrou-se do sonho que tivera há pouco, ou melhor, dos sonhos. Um após o outro, pessoas trocando de forma, passando a ser outra, com o significado da anterior, terminando em um abraço, lento e necessário. No fim, ele aceitou que as lembranças entrassem novamente, sem bater, só entrassem, que cada uma ocupasse o lugar que melhor lhe agradasse, se instalando ali, a única coisa que pediu foi para que não doessem, já que, a tênue linha entre a dor e a as lembranças está em como elas resolvem despertar.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Reconexão.

O ar estava parado. O relógio anunciava quatro horas da manhã. A luz estava apagada, e dentro do quarto as questões subiam como vapores quentes, como o calor subindo de um asfalto em brasa. Não era possível saber o que causará essa inquietação naquela noite em particular. Era como uma noite do passado, aliás, era como se o passado surgisse pelas frestas da janela, querendo entender porque ele fora esquecido. Não havia uma resposta satisfatória para isso. O passado foi sendo esquecido conforme o pensamento direcionava-se para frente, o lugar onde mora o pior inimigo do passado. No ar abafado pairava um misto de melancolia e desapontamento, ambos incomodaram agora de forma diferente. Era como uma conexão perdida, que a tanto não era ativada. A questão era se esse ligamento poderia ser refeito, se as estruturas suportariam o efeito do tempo, ou se seria apenas uma lembrança quando as noites quentes tinham outro significado, outro gosto. Talvez a culpa esteja no espelho, ou na eficiência falha do mesmo. Ou até mesmo a questão não seja sobre culpa, não podemos culpar o tempo por estar correndo, esse é o sentido de ele existir. Agora o desejo de pedir ao relógio que adote o sentido anti-horário está fraco. Não tenho certeza se isso é uma coisa positiva, sempre se teve a certeza de que não, agora essa é mais uma das questões que sobem lentamente em vapor até o teto, para se juntar com outras questões que ainda não me dei conta de já estarem lá, me esperando.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Tudo é sobre controle.

Finalmente um longo ano terminou deixando seus rastros por todos os cantos. É impossível não ver a metamorfose que ocorreu em longos dias de um só ano. Talvez finalmente a metamorfose tenha ganhado força, o impossível será fazer com que ela pare, volte ao zero, ao ponto de onde começou. Nisso já penso que entre a questão do controle. Todo ser humano vive sob controle, mas aqui eu digo sobre o próprio controle, aquele exercido por ele mesmo, e não por terceiros e instituições controladores de que tanto se fala. O que também seria hipocrisia dizer, já que independente de todas as outras formas de controle, a que mais prezamos é o nosso próprio controle. Não damos um passo sem perder o controle, estamos nos policiando a todo momento para que não cometamos nenhum deslize ou infração social, que nos tire o direito de sermos livres. Se fossemos atender aos nossos desejos reais, creio que não poderia existir o controle, de forma alguma. Resumindo, todas as pessoas são bombas-relógio, sempre com sua contagem regressiva para perder o controle por alguns instantes até que a bomba seja colocada sob repouso novamente, para que tudo possa seguir em ordem, monótono, como sempre esteve. Agora, se formos pensar, é uma antagonia entre a ordem e o caos. Vivemos na ordem desejando o caos, e se isso não acontece, é porque os que preferem a ordem, já perderam seus sentidos, não tem mais forças para reagir, lutar. Finalmente conseguiram se educar para que sempre estejam controladas, para que nunca percam a razão, para que nunca respondam por elas mesmas. Acredito que essa metamorfose seja então necessária. Mesmo apresentando tantos opositores anti-caos desejando que a mudança não aconteça. A pessoa não será a mesma depois disso, e enfim um atrito começará entre a ordem e o caos, sem saber onde isso irá chegar, sem saber quem estará com a razão, ou a falta de. A resolução disso tudo eu não sei dizer, acredito não ter uma resposta formada, assim como não conheço ninguém que a tenha. Talvez isso apenas demonstre como tudo é complexo, muito mais do que por em palavras ou explicações, vai muito além.

domingo, 12 de dezembro de 2010

About christmas trees.

Antes eram apenas caixas. Fechadas e com um pouco de pó em cima, sem a manutenção frequente, a única companhia que as restou foi os finos e numerosos grãos de poeira que se assentavam sem pedir licença. Hoje as caixas foram chamadas para vida. O pó foi tirado sem pedir licença, levado junto com o vento a alguma outra caixa que ainda está esperando para despertar. Depositadas no chão da sala, uma ao lado da outra, elas foram abertas. Primeiro foi a maior, exibindo uma árvore encolhida. Foi a primeira a encher seus pulmões de ar puro, sem resíduos de pó. Abriu seus longos ramos, cada ponta esticando ao máximo, querendo atingir todos os limites antes privados, buscando tocar o impossível com suas extremidades. Se encaixou, se ergueu. Uma árvore dupla buscando alcançar as estrelas, que agora pareciam tão próximas. Logo a atenção se voltou a segundo caixa, onde pequenas bolas coloridas dançavam ao redor de pequenos presentes. Como se a simples abertura da tampa, fosse o suficiente para elas acharem forças para pularem fora. O que não foi preciso, já que uma a uma foi posta na árvore, em um lugar estratégico onde cada uma seria observada da melhor maneira, mostrando suas melhores qualidades. Agora a árvore estava mais verde do que nunca. Mais viva do que nunca. Ela tinha não só amigas, mas também companhia para reinar em pé, em meio a pessoas que não fariam mais do que observá-las atentamente, explorando cada detalhe que os seus olhos conseguissem captar. Vermelhas não são permitidas próximas de outras vermelhas. O mesmo se aplica a todas as outras bolas coloridas. Elas enfim ficaram dispostas com equilíbrio, um pouco de cada, em cada área específica. Logo foi a vez da terceira caixa. Esta quase não aguentou esperar para ser aberta. Queria abrir, precisava abrir. Ser aberta só facilitaria as coisas, mas ninguém poderia fazer o trabalho que seu conteúdo foi designado a fazer. Luzes, era isso que a terceira caixa abrigava. Luzes coloridas. Presas em uma cadeia longa e mista. Foram postas ao redor da árvore, por cima das bolas coloridas. Fazendo uma espiral programada. As bolas coloridas não ficaram frustradas com as luzes, elas as agradeceram. As luzes ajudariam a árvore e todos os seus atributos a serem vistos da melhor forma. E enfim veio a energia, e a árvore se acendeu. Piscando lentamente e em um ritmo próprio. Sem fazer barulho, mas demonstrando uma presença incrivelmente forte. Não tinha mais como negar, ela estava ali, ela queria ser observada e questionada, sem dizer uma palavra para que isso acontecesse. Sem responder a uma questão diretamente. Muitas perguntas merecem uma metáfora como resposta, ou apenas o silêncio. Aquela árvore piscava com urgência. Ela passou tempo demais em caixas para brilhar de forma razoável e morna, agora ela queria transmitir o seu brilho, de forma tranquila e agressiva, ela queria brilhar, como se fosse a sua única função, não por esperar os olhares atentos dos observadores, mas para quando o seu brilho se extinguir, ela poder descansar de volta em sua caixa com a sensação de vida percorrendo em seus longos ramos.