segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A leveza e o peso.

Não passava de uma pena presa em um carro. O fim da tarde estava próximo, logo a noite se mostraria presente e a pena continuaria em sua prisão a céu aberto. Isso implica não só o calor da tarde, mas como o frio da madrugada. Desse ângulo eu posso ver o quanto ela queria estar livre, ir embora com a primeira brisa que se mostrasse forte o bastante para levar o peso de uma pena nas costas. O ar está parado, as árvores não se mexem, a pena por sua vez, resiste em um vento fantasma com a esperança de ser libertada. Pode-se dizer que está acontecendo uma contagem regressiva, o sol vai roubando aos poucos o tempo que ainda resta para a luz estar presente, é a única chance que a pena acredita. Quando a noite chegar, ela vai ficar invisível a inúmeros olhos, e não se sabe em baixo do que ela estará amanhã. Essa pena quer ser carregada pela vida, e esse é o seu único medo no momento.

sábado, 18 de setembro de 2010

Echoes.

Há uns dias, as tardes seriam tudo, menos vazias. Isso se tornou apenas um passado onde não sabemos se foi sonho ou uma realidade nebulosa. O corredor está vazio agora, na cabeça ainda ecoam os passos duplos em direção ao interior daquele sentimento contraditório, a memória se mostra precisa para aqueles que não sabem deixar as coisas seguirem seus próprios caminhos. Uma prisão mental onde pessoas ficam vagando, sendo escravas de atos e dias que deveriam ser livres, deveriam estar livres. Mais uma vez a liberdade pedindo para existir, para ser gerada, finalmente poder sair de sua crisálida e erguer-se entre aqueles que ainda acreditam nela. Essas pessoas se conformam não apenas com a idéia de que os atos escolhidos terão efeito em sua vida daquele ponto em diante, como aprendem a viver com eles, com os acertos e erros. A idéia de liberdade não é um erro, cada um tem sua própria concepção, e mais uma vez nos mostramos não só inaptos a aceitar a idéia alheia, mas ainda: desejamos que o outro compartilhe de nossa idéia. Já se dizia que o silêncio não existe sem o barulho constante do dia a dia, e nesse momento, silêncio vazio é tudo que me resta.

sábado, 11 de setembro de 2010

Ambiguidade.

Dois mundos. Duas vidas. Dois eu’s que se convergem ao encontro em momentos em que eu precisava ser apenas um. Enquanto penso tranquilo no ontem, o hoje se mostra cada vez mais propício a um ato impulsivo, que mesmo eu ainda não sabendo, fará do amanhã apenas mais um novelo a desenrolar. Alguns poucos dias se arrastaram devagar, vendo do ponto onde eu me encontro, eles agora se parecem com um borrão, uma massa disforme onde tudo se encontra fora do lugar, como se uma ventania tivesse passado e desarrumado todas as prateleiras. Meus livros estão espalhados pelo chão, a ordem foi quebrada. Preciso juntar forças para tirar o pó das páginas amassadas e começar a organizar livro por livro, dia por dia, pessoa por pessoa.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

About birds.

Hoje foi um dia sem sol, as árvores não ficaram levemente alaranjadas e o céu não mudou suas cores lentamente. Em meio a tudo isso, dezenas de pássaros passaram voando baixo em minha frente, tão pequenos em seu próprio bando. Uma das coisas que o ser humano mais inveja na natureza, é o desejo de ser pássaro. Voar simplesmente pela sensação do vento passando pelo seu próprio corpo e sussurrando liberdade em seus ouvidos. É o desejo de ser livre, que os pássaros tem sem ao menos perceber. Talvez seja apenas um deslize do ser humano, mas não somos livres. Não podemos abrir as asas e sair em direção ao sol gritando ao mundo a dor do vôo. Pássaros não precisam gritar, passam despercebidos na maior parte do tempo. Já nos acostumamos com a ideia de pássaros voarem, não nos acostumamos com a ideia de que não podemos voar. Cada um tem o seu próprio abismo e o seu próprio pássaro, os dois encontram-se apenas uma vez, após isso, não se pode mais pousar.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Sun goes down.

Após um dia cansativo com muitos barulhos e gritos, ele se volta para o horizonte. Observa o dia ir sumindo calmamente, como a sua própria euforia. Ele estava ficando escuro, sem luz. O Sol não estava mais visível, apenas viam-se raios alaranjados, como uma última tentativa de o sol não morrer, um último suspiro. Não se sabe dizer o que houve nesse dia, nem mesmo o sol poderia esclarecer. Ele percebeu por fim que isso era de certo modo simples de explicar: era uma raiva internalizada. Não lhe fazia mal, apenas fazia perguntas. Ele não queria responder, não tinha forças para qualquer resposta, estava ficando escuro. Escuro sempre é bem vindo. Como ele gosta do escuro, ainda sente medo, mas gosta com força. Acredito que era um ar denso, sem muita pureza, e isso o irritava, tudo o que faz é fechar a janela. Observa-se sozinho, em uma caixa escura com um filete de luz se diluindo pouco a pouco. Fica parado, não existe pressa. Olha sua sombra quando em comunhão com o escuro e sente-se vivo, e isso o incomoda de uma forma aguda. Em outras pessoas, a sombra não chegaria a tal ponto de comunhão, seria interrompida antes de qualquer coisa. Ele não quer ser como as outras pessoas, não quer cortar o efeito da comunhão das sombras. Ele é ele, e isso o tranqüiliza.

domingo, 13 de junho de 2010

Glass.

Percebo que isto está se tornando frequente. Sinto a mesma coisa cada semana. Será isso que chamam de viver e abandonar uma vida? Não tenho certeza do que achar, nesses momentos apenas sinto, sinto com força. Percebo um aceno do outro lado do vidro. É um aceno para ninguém, de uma pessoa que achamos ser ninguém. Independente do nosso próprio conceito, o aceno foi feito e posso garantir que teve efeito sobre mim. O aceno não foi pra mim, aos olhos dele eu também sou ninguém. Isso me assusta como deve assustar cada ser humano. Não gostamos de ser ninguém, não permitimos isso. Precisamos da atenção, essa que eu recebo toda semana e que me faz falta quando percebo que chegou a hora de acenar. Agora eu entendo, esse sentimento é a atenção. Preciso dela para sobreviver, preciso dá-la para que outros sobrevivam. Desse lado do vidro está meio deserto, pelo menos mais deserto que de costume. Várias atenções juntas, duas me chamam. Preciso delas. A outra eu apenas sinto. Sinto o cheiro, e nesse momento isto basta.

Espelhos.

Como posso ver o tempo passando rápido, bem em frente aos meus olhos, nos espelhos em que encaro no decorrer dos dias. Espelhos de dentro, aqueles que só nós vemos o reflexo. Talvez nós mesmos criemos os reflexos, não posso dizer com certeza. O espelho muda, todos eles. Acredito em várias pessoas em uma só. Cada interação vai receber uma pessoa diferente. Sendo assim, vejo o quanto de espelhos cada pessoa deve ter. Será o suficiente? Toda essa complexidade me faz refletir sobre o tempo, talvez não só sobre o tempo, mas como ponto de partida. Mudamos. Sim. Isso é o que nós somos, mudanças. Pode ser que não percebamos isso em nós mesmos. Somos capazes de perceber nos outros, sempre nos outros. Várias versões de uma só pessoa, distribuídas conforme as afinidades com a outra. Não somos um só, de forma profunda. Tudo o que vemos é a superfície, e nela, sim, somos apenas um. E somos todos os outros que se alojam em nossa profundidade, mesmo não nos dando conta. Eles existem.